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Uma câmera na mão e um nó na cabeça
No ano de 1986, no último ano de Publicidade e Propaganda na PUCRS, como trabalho de conclusão de curso, os alunos tinham que fazer um comercial em Super 8. Eu e o colega Paulo Benevides optamos por um curta-metragem. Parecia bem mais divertido filmar por filmar, sem precisar vender produto. Além disso, a gente se achava cineahsta — assim mesmo, com sotaque carioca.
A história se passava no futuro, ano 6969, e, naquela época, as pessoas não faziam mais sexo. Não só não praticavam como não sabiam o que era um vuco-vuco.
O filme começava num sítio arqueológico do século XX. Um rapaz leva uma amiga até as ruínas de um antigo motel. Depois de escorregarem num fóssil de camisinha e numa bisnaga de vaselina petrificada, chegam ao quarto. Hora de tirar a roupa para ver como é que era esse negócio de rala e rola.
Assim que se deitam na cama fúcsia em formato de coração, o cara convence a mina a dar uma mamadinha. Quando ela abaixa a cabeça, se preparando para o Roto-Rooter, o rapaz puxa da cueca uma cenoura.
Imagina a gente apresentando esse roteiro “instigante” ao professor de uma faculdade católica. A princípio, o sujeito esperneou, disse que aquilo era uma palhaçada, que o reitor não só ia expulsar a gente como também excomungar o elenco.
Bons de lábia, dissemos que se tratava de um filme experimental, com pitadas de expressionismo alemão, uma colher de chá de Tarkóvski e uma xícara de nouvelle vague.
Não foi difícil encontrar um ator e uma atriz — o campus da Famecos era cheio de gente à toa e meio sem noção, um pouco como eu e o Paulo.
No dia combinado, fomos até o Drops Motel. Achei engraçado o nome — lembrava aquela piadinha de colégio: “põe a mão no meu bolso e pega um drops”.
Éramos cinco: eu, o Paulo, os dois atores e o professor.
Na recepção, o segurança fez cara feia quando viu o bando e avisou que surubas estavam proibidas, porque aquele era um estabelecimento “de família”. Mas depois de molhar a mão do cara — com grana, não com algum líquido viscoso — conseguimos entrar.
O professor era o encarregado da câmera e iluminação. Além de careta, estava com uma má vontade maior que o Obelisco de Buenos Aires.
Os problemas começaram logo na primeira cena: pedimos para filmar do ângulo oposto, e ele ficou putíssimo, dizendo que estávamos violando uma regra básica do cinema — a quebra de eixo. Usou o exemplo de um jogo de futebol: se a câmera muda de lado, o espectador se confunde com as equipes.
Mas eu tirei do nada um cineasta russo dos anos 40 — inventei um nome qualquer, com “ovsky” no final — e disse que ele fazia exatamente isso. Que era super vanguardista quebrar, fraturar, pisotear e mijar em cima das regras. A contragosto, depois de uma longa bufada, o professor seguiu adiante.
De propósito, deixamos para filmar a cena do boquete no final, sabendo que o pedagogo ia surtar. E não deu outra: quando a mina meteu o tubérculo laranja até a garganta, o cara teve um troço, desligou a câmera e as luzes e deu por encerradas as filmagens.
Nunca houve segunda chance para terminar. Segundo o professor, o reitor havia confiscado o rolo.
A gente pode ter queimado o filme — mas se divertiu pra cenoura.
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hahaha, adão, esse argumento do filme tá mais atual do que nunca. manda pra netflix!
20Çeduzir