Amizade à primeira vista
Em 1997, quando fui morar no edifício Bretagne, em São Paulo, dividi apartamento com o Zed Nesti. Ele e o irmão, Fido, são amizades que me marcam até hoje. Dois artistas e pessoas maravilhosas que me influenciaram muito — e eu devo ter influenciado eles também, acredito.
A gente era jovem e insistia em não economizar emoções — como dá pra ver nas fotos.
No álbum aparecem também o Estevan Schilling e o Emílio Boechat, dois outros craques da vida louca que frequentavam o famigerado 176 — aquele apartamento que eu prefiro que fique mudo.
Na primeira foto, estou de cueca, curando uma ressaca na pia do banheiro. Ao lado, estamos na sala vendo TV. Devia ser inverno, porque o Zed está enrolado numa coberta, com o gato Hugo no colo e seus olhos brilhantes de marciano. Ao fundo, a já lendária garrafa gigante de Coca-Cola que o Zed achou sabe-se lá em qual lixão.
Mais ao lado, o Fido observa o skyline de São Paulo enquanto filosofa sobre o sentido da vida.
Logo abaixo, na cozinha, mastigo uma folha de rúcula e seguro uma cerveja, com o Fido ao lado — ambos satisfeitíssimos com a dieta.
Noutra imagem, com um quadro do MZK ao fundo, aparecem Zed e Fido: Zed, praticante de esgrima, estava virado num verdadeiro Apolo e conquistava todas as garotas do pedaço.
Depois, eu e o Emílio Boechat sorrimos de orelha a orelha, emoldurados por umas litografias do Fábio Zimbres na parede.
Ao lado, estou fazendo um gesto para espantar os maus espíritos do Fido — um exorcismo leve, de amizade.
E na última foto, o selvagem Estevan e o Zed posam de paraquedistas, prontos para o salto. Eu nunca quis fazer isso — já me arriscava o suficiente na vida.
Eu, o Zed e o Fido fizemos um fanzine com o sugestivo nome de Heroína. O Angeli também colaborava, assim como um francês chamado Max — que conheci na Flag, a revista francesa com a qual colaborei em Paris.
A capa era uma pintura do Zed mostrando a sala do apartamento, com seu amigo Kichi (que morreu precocemente de infarto) conversando com alguém que já nem lembro quem era.
A mina em close na capa era inspirada numa amiga chamada Kátia.
O quadro que aparece na imagem, na parte de cima, de um peixe usando piercing, tem uma história engraçada. Quando conheci o Zed, prometi dar a ele uma pintura de presente — pedi só que trouxesse uma tela ou um pedaço de madeira. Um dia o desgraçado apareceu com uma tábua do tamanho de um longboard. O que a gente não faz pelos amigos.
Eu e o Fido éramos tão vadios que um dia escrevemos até um poema:
Na vida não tem o Control Z
Você errou, vai se foder
Na vida não tem o Undo
Bobeou, tomou no cu.
A vida costuma dar reviravoltas e dois anos depois, o Zed se mudou e o Fido veio morar comigo.
E esta HQ do Fido mostra bem como eram as nossas tardes produtivas.
O mais louco é que nada nessa HQ foi inventado. Fido me chamava de Donis e eu chamava ele de Frongsten. Só não me pergunte o que significam chamechunga e charengo.
Hoje o Zed virou um artista plástico incrível, e o Fido enveredou pelos quadrinhos. Com 1984, ganhou o Prêmio Eisner — o Oscar dos quadrinhos.
Eu poderia escrever páginas e páginas, livros e mais livros sobre amizade. Talvez até faça isso algum dia.
Amigo é aquele familiar que você tem o direito de escolher. Às vezes a amizade é tão intensa que você se apaixona pelo amigo — por favor, não confunda com sexo. Pelo menos, não neste caso — e pela vida. E não existe nada melhor do que isso.
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ObrigAdão e bom finde.








Esse apartamento era um L(I)UXO messs!