Aproveite a ressaca
O sentido da ressaca
Ressaca é uma merda e todo mundo concorda com isso. Os pouquíssimos que curtem o mal-estar pós-borracheira se dividem entre masoquistas e os que já morreram.
Mas o fatídico dia seguinte tem algo mais a nos ensinar além do respeito que devemos ter aos limites do consumo de álcool. A ressaca ajuda a gente a dar valor às coisas simples e talvez até ao sentido da vida.
Pessoalmente, acho que a vida não tem sentido nenhum e ficar buscando uma razão para a existência é pura perda de tempo. Somos acidentes: uma camisinha furada, um erro de cálculo na tabelinha, um DIU mal ajustado ou um coito interrompido milésimos de segundo depois do momento seguro.
Não vou me estender — vou direto ao ponto: qual é, afinal, a importância da ressaca?
Em 2000 eu morava na Urca, no Rio de Janeiro, com uma companheira carioca. Uma noite saí com um amigo que pegava pesado. Bebemos muito além da conta — mais do que o dobro do que meu corpo suportava. Para piorar, misturamos destilado e fermentado, coisa de amador mesmo.
Depois da farra, não sei como consegui voltar para casa. Lembro vagamente do meu amigo me empurrando para dentro de um táxi. Pedi para o motorista me desovar perto da mureta da Urca. Não queria chegar direto em casa naquele estado deplorável e tinha a ilusão de que a brisa da Baía da Guanabara fosse me recuperar um pouco.
Depois de meia hora levando vento quente na cara, com o corpo balançando como se estivesse numa jangada, tomei coragem, entrei no prédio e, após umas dez tentativas, consegui acertar a chave no buraco da fechadura. Por sorte, minha companheira dormia profundamente e não me viu cair na cama de roupa e tudo.
No dia seguinte, bem cedo, senti um cutucão. Era ela me chamando no banheiro. Cheguei lá e morri de vergonha. A privada — e tudo ao redor dela — estava salpicada de tons de roxo e verde bílis. Nem o teto se salvou. Parecia uma pintura 3D do Pollock.
Levei umas duas horas para limpar os resquícios da bebedeira e passei o resto do dia me arrastando como um soldado ferido rastejando em Omaha Beach, a mais mortífera das praias da Normandia no Dia D.
Naquele momento eu sofria tanto que tudo o que mais queria era que aquela sensação passasse. Queria minha vida normal de volta. Queria abraçar minha esposa, brincar com os gatinhos, apreciar os tons de verde da decoração, caminhar pelo bairro, respirar o cheiro da maresia e contemplar o vaivém dos aviões no Santos Dumont. E, claro, voltar a rabiscar minhas histórias na prancheta, em busca de piadas.
Mas o mal-estar me impedia de fazer qualquer coisa. Então, me dando por vencido e aceitando o quão miserável eu estava, resolvi deixar para amanhã.
Só que no dia seguinte eu ainda não tinha voltado ao normal. O tempo se arrastava comigo e tudo era um sofrimento. Meu estômago parecia do avesso, amarrado com barbante e o paladar era de maçaneta de banheiro de rodoviária.
Foi aí que descobri a ressaca de mais de 24 horas e a inexistência de Deus. Foi quase tão traumático quanto, na infância, descobrir que um dia a gente morre.
E foi assim, graças à maldita ressaca, que aprendi a valorizar as pequenas coisas do cotidiano. Como é bonito o trivial. Como pode ser gostoso o prosaico — observar os pássaros cruzando habilmente o céu, a paciência da aranha à espera de que a presa caia na armadilha, o som das ondas batendo nas rochas. Um olhar, seguido de um sorriso, para um passante. Um beijo na pessoa amada. O nascer do sol. O pôr do sol.
Percebi que o simples fato de vivenciar o dia a dia, com suas sutilezas banais, já nos permite ser quem somos com alguma integridade. Por isso, é essencial desfrutar não só os momentos de êxtase, que são raros e efêmeros, mas também as rotinas mornas e aconchegantes. Essas, sim, são constantes. E duram mais.
"Carpe diem cum vel sine crapula."
*Aproveite o dia com ou sem ressaca (em latim).
Amsterdã é uma festa
Meu novo livro, (e segundo) livro em prosa está disponível no quiosque virtual mais próximo da sua casa.
Apresentação do livro
Paris por um triz foi meu primeiro livro em prosa. Nele, contei minha saga na Cidade Luz em 1990, em busca de um lugar ao sol e espaços em jornais e revistas para publicar meus quadrinhos. Naquela época, por causa da grana curta, viajei pouco, mas consegui dar uma escapada rápida para Amsterdã.
Foram só três dias que, de tão intensos, pareceram durar uma eternidade.
É disso que trata este novo livro — o meu segundo em prosa. Amsterdã é uma festa é o relato das minhas aventuras doidas na “Veneza do Norte”.
Diferente do livro sobre Paris, neste optei pela terceira pessoa, o que deu mais liberdade ao meu outro eu, o Adaô — aspirante a beatnik e desbravador.
Este livro flerta com a autoficção — termo criado pelo francês Serge Doubrovsky em 1977 para descrever seu romance Fils — aquele gênero em que memória e invenção andam de mãos dadas. Talvez essa seja mesmo a melhor definição para Amsterdã é uma festa: meio autobiografia, meio invenção. De vez em quando, dou asas à imaginação, só para garantir que o leitor não caia no sono.
No início dos anos 90 o mundo era outro, bem diferente do atual. Um mundo pré-internet, com telefones públicos (os “orelhões”), poucos computadores e, no máximo, um ou outro aparelho de fax. Outro tempo. Outra onda. E, ainda assim, algumas coisas não mudaram — como o frio na barriga ao pisar num lugar desconhecido.
Onde comprar
A edição é totalmente independente e está disponível no Brasil, aqui.
Para quem mora fora, a Amazon disponibilizou em marketplaces de todo o mundo, é só escolher o mais próximo da sua morada. Aqui.
Tem também a versão Kindle. Aqui.
Hora de passar o chapéu
Segue um videozinho novo que fiz pra apresentar minha campanha de financiamento coletivo, o Correio Elegante.
Prometo melhorar na atuação. E os olhos um pouco caídos não são de tristeza — é só o existencialismo batendo de leve.
A ideia do vídeo é sensibilizar mais gente a assinar.
Assiste aqui.
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ObrigAdão e bom finde.






Com a idade a ressaca vira uma doença. Você fica de cama por 3 dias, é foda. O engraçado é que sempre esquecemos da ressaca e semanas depois por um motivo ou outro voltamos a beber como animais. Vivendo e não aprendendo.