Cérebros
O Correio Elegante, além de ser um canal para publicação de meus cartuns e tiras, também é um lugar onde nascem meus livros. Foi assim, em formato semanal, de folhetim, que escrevi Paris por um triz, Amsterdã é uma festa e Nós sempre teremos São Paulo. Aqui vai o início, os primeiros quatro capítulos do livro que estou escrevendo sobre cérebros.
Quando contei a ideia ao amigo Daniel Limeira ele me falou que lembrava um pouco o conto “O Nariz”, do Nikolai Gogol, escrito no século 19. Eu nem lembrava dessa história, mas o fato de eu ter colocado nomes russos nos meus personagens foi uma coincidência enorme.
Cérebros
Um
Bem-vindo à cidade mais chata do mundo. Encravada no meio de coisa nenhuma, onde o diabo perdeu as botas e o vento se arrepende de chegar e dá meia-volta.
Todo dia era igual ao anterior, como um filme com defeito que, ao chegar no final, retorna ao início.
Sol nasce, sol sobe, sol desce, sol morre. No dia seguinte, o mesmo. Vai chover? Fazer calor? Vento? Não aguento mais essa umidade. Odeio esse clima seco. Que fôlego tem a natureza — incansável, todo dia plagiando a si mesma.
O vilarejo foi construído como dormitório de uma montadora de automóveis localizada na capital, a cinquenta quilômetros dali, que acabou falindo.
As casas eram populares, todas parecidas, caixotes sem pretensão. Na frente, uma porta e duas janelas, parecendo um rosto humano, com olhos a bisbilhotar a vida alheia, fazendo cara de pôquer. Mas havia pouca vida para ver. Pouca ação. Era tudo muito caído, chato para chuchu.
As únicas construções que os arquitetos não desenharam com os pés eram a casa de governo, a prefeitura e a igreja.
Cenário perfeito para aqueles filmes clássicos de faroeste: árido, sufocante, bolas de arbusto seco se arrastando com pressa. Infelizmente, Hollywood estava muito longe dali.
A cidade contava com vinte e cinco quarteirões. As seis ruas horizontais tinham números, as seis verticais tinham letras. Moro na 2 com B, dizia o morador, como num jogo de batalha naval. Aliás, o clima no lugar era exatamente de uma batalha naval sem mar, sem porta-aviões, nem torpedos.
A praça ocupava o quarteirão central, entre as ruas 3, 4, C e D. Oito caminhos cimentados partiam das bordas e convergiam para o centro, onde havia uma fonte seca de alvenaria com o busto de um dos fundadores do município — sem nariz, corroído pelo tempo, com uma pichação meio apagada, mas ainda legível: “filho da puta”.
Em volta, bancos enferrujados, árvores com buracos recheados de cimento, ervas daninhas e um gramado com todo tipo de mato, menos grama.
Ali vivia Svetlana, uma cadela vira-lata comunitária. Dormia debaixo de um dos bancos como se fosse dona do pedaço. Talvez fosse, vai saber.
As ruas eram pavimentadas com paralelepípedo bastante irregular pelo tempo. Todos os dias, alguém ia ao posto de saúde tratar de um pé torcido pelo desnível.
A única parte asfaltada eram as ruas que circundavam a praça, mas o asfalto estava tão gasto e esburacado que dava para ver o antigo calçamento por baixo.
Só tinha um semáforo, não funcionava há uma década. Nem era necessário. O prefeito comprou porque um fabricante ofereceu propina numa compra sem licitação.
Além de ser o município mais irrelevante do planeta, era o mais sem graça. O mais entediante. Nada acontecia. Nada de novo. Só coisas velhas que se repetiam a todo momento, iguaizinhas às anteriores, num ciclo que se arrastava pelos 365 dias do ano.
Ivan, o delegado de polícia da cidade, tinha um aspecto que combinava perfeitamente com seu habitat: nada de chamativo. Nariz normal, boca sem lábios, expressão ausente, olhos moribundos e um penteado xarope. Sessenta e cinco anos, nem gordo nem magro, mas com um acúmulo de gordura na cintura e pouquíssima massa muscular — típico de quem nunca teve coragem de arriscar na vida.
Suas roupas combinavam com a falta total de ousadia: calça de tergal azul-marinho, sapato preto de cadarços, camisa social branca de manga curta e cinto marrom. Nem se dava ao trabalho de combinar o acessório com o sapato.
Todo santo dia, às sete e meia em ponto, Ivan chegava na delegacia. O expediente começava às oito, mas ele fazia questão de chegar adiantado, mesmo sabendo que raramente tinha coisa para fazer.
A delegacia ficava numa casa igual às outras. A única diferença era uma placa de madeira com a palavra “delegacia” gravada a pirógrafo. Quem olhasse com atenção percebia que tinham escrito “delegassia” e depois corrigido.
O escritório de Ivan era modesto como ele: uma mesa e duas cadeiras de pinho, um computador com inacreditáveis 200mb de HD, que não funcionava — então ele usava uma máquina de escrever Olivetti. Na verdade, só teclava qualquer coisa uma vez por semana para manter o aparato funcionando.
Junto à mesa, um arquivo de ferro todo oxidado e, na tentativa de dar um toque sofisticado à decoração minimalista, uma reprodução de uma praia de Cancún na parede — palmeira, céu azul, garotas de biquini, coisas que só faziam parte dos sonhos dele.
Ao lado da minúscula cozinha, ficava a lavanderia, improvisada como cela, com barras tão frágeis que até uma criança fugiria em dois tempos.
Há anos o maior crime da cidade era briga de bêbado no bar do Seu Boris — sempre às sextas, sempre pelos mesmos motivos, sempre entre as mesmas pessoas.
Roubo, só o de flores. Todo mês, na madrugada, alguém arrancava mudas do canteiro da pracinha com uma regularidade que poderia perturbar Ivan, se ele já não estivesse no mais alto grau de enfastiamento.
Assassinato, jamais. Roubo a banco, nem pensar — nem banco tinha. Só o caixa eletrônico da farmácia, que vivia fora de serviço.
Quando cravava dezoito horas, Ivan batia o ponto — quando este funcionava — e voltava para casa, que ficava na rua 5 entre D e E.
Era igualmente modesta: dois quartos, sala, banheiro e cozinha com lavanderia. Um pátio pequeno nos fundos, com um roseiral maltratado, um corredor lateral com grama mal aparada que chegava até a frente e nenhuma árvore. Ivan odiava árvores porque davam muito trabalho.
Ludmila, sua esposa, estava lá, todos os dias, assistindo TV ou nos seus afazeres domésticos: lavar roupa, louça ou limpando a casa.
Ludmila tinha 55 anos, exatamente dez a menos que Ivan. Era baixinha e, há aproximadamente dez anos, começou a crescer para os lados. Não estava gorda, porém andava no caminho certo.
As raízes brancas escapando perto das orelhas começavam a trair os cabelos pretos, mas ela não tinha paciência para pintar com regularidade. Em outros tempos, os peitos fartos eram duros e empinados, até Newton, com sua maldita lei da gravidade, dar um jeito de bagunçar a coisa.
Tinha trabalhado na montadora até a fábrica fechar. Com o dinheiro da indenização, mais o salário do Ivan, dava para sobreviver — sem nenhum luxo, sem carro importado, sem Caribe.
Casados há trinta anos, tinham aprendido a dividir o espaço sem precisar se encontrar de verdade. Dormiam em camas separadas há uma década, ou mais — tanto tempo que nem lembravam direito.
A rotina de Ivan era a mesma, dia após o dia, sem falhar uma única vez. Acordava às sete da manhã e, depois de uma ducha rápida, tomava uma xícara de café solúvel com um dedo de leite frio. Um dedo. Nem mais, nem menos. Lavava a louça, ia ao banheiro, escovava os dentes e, se necessário, fazia o número dois. Seu sistema digestivo funcionava como um relógio. Aliás, sua vida inteira era regrada por um horário rígido, cronometrado.
Assim que saía, Ludmila acordava. Sem combinar, quase que instintivamente, faziam o possível para nunca se encontrarem.
Ivan ia caminhando até a delegacia — eram três quadras. Como não havia trabalho, roubo de flores nem desentendimento entre bêbados, passava a manhã sentado, lendo revistas e jornais velhos. Levantava duas vezes: uma para ir ao banheiro e outra para preparar café solúvel na minúscula cozinha. De vez em quando, ia até a porta observar o tempo, para ter assunto com algum passante. Vai chover? Vai fazer sol? Tá pesado o clima. Muito úmido.
Uma vez por semana, durante a manhã, aparecia Tatiana, a faxineira. Loira, olhos castanho-claros, estatura mediana, magra. Tinha uns trinta anos e, olhando com cuidado, dava para ver uma mulher bonita que havia sido surrada pelo tempo e vida dura. Eles quase não conversavam — só quando ela pedia licença para varrer debaixo da mesa ou avisava que algum produto de limpeza estava faltando.
Meio-dia em ponto, Ivan voltava para casa e almoçava um sanduíche de apresuntado e queijo com uma Sprite. Era o único momento que dividia com Ludmila. Não falavam nada além de me passa o pão, me passa a margarina, mais café, um pingo de leite.
Uma da tarde voltava para a delegacia. O roteiro era sempre o mesmo: café, banheiro, revistas velhas, conversa sobre o tempo. Às seis voltava para casa, esquentava uma massa com molho de tomate de lata e abria uma Sprite.
Naquela noite, comeu enquanto lia a receita no verso da embalagem: massa com atum. No dia seguinte compraria também uma lata de atum, pensou.
Não iria comprar.
Raspou o prato, lavou a louça e limpou a mesa. Escovou os dentes e foi dormir.
Nesta noite, porém, estava agitado. Sua cabeça latejava e demorou mais do que o normal para dormir.
Lá pelas duas da manhã, quando Ivan afundou de vez no sono, Roman acordou. Roman era o cérebro de Ivan. O bicho estava com raiva. E não era uma raiva nova. Era aquela raiva acumulada, rançosa, do tipo que vai crescendo em silêncio por anos, até que simplesmente um dia não cabe mais em lugar nenhum. Trinta anos de massa com molho de lata. Trinta anos de caixa eletrônico quebrado, de flores roubadas, de porra nenhuma acontecendo.
Chega, pensou Roman. Eu mereço mais do que isso.
Dois
Roman reuniu tudo o que tinha. Com uma raiva que não se podia medir, empurrou. Como nada acontecia, empurrou mais. Mais, mais e mais. Nada, nem cócegas no crânio. Então usou a energia represada de milhares de dias sem sal, décadas de tédio absoluto, e forçou com tudo. Ouviu-se um barulho de osso cedendo e a caixa craniana abriu devagar, como uma lata de salsichas que alguém destampa com cuidado para não desperdiçar o caldo.
Roman saiu.
Já do lado de fora, com um talento que ele não saberia explicar direito — instinto primitivo, provavelmente — fez brotar dois bracinhos e dois olhinhos que piscaram na penumbra cheios de satisfação. Em seguida, fechou a cabeça de Ivan com o mesmo cuidado com que tinha aberto, sem deixar vestígio nenhum.
O homem continuou deitado. Exatamente como antes, só que agora com a cabeça oca.
Roman rolou até a beira da cama e se preparou para saltar. Faltava algo. Com um esforço extra, nasceram duas perninhas. Fez do lençol uma corda, como um fugitivo de presídio — tinha visto num filme — e começou a descer. Estava quase tocando o chão quando Ivan moveu os braços e o tronco freneticamente, balançando o colchão e puxando o lençol. Roman voou e foi parar debaixo da mesa de cabeceira.
Uma onda de terror invadiu seus miolos. Aquilo não era possível. Ivan não tinha mais cérebro — logo, deveria estar morto e imóvel.
Presuntos normalmente ficam parados, dos pés à cabeça. Até uma criança de cinco anos sabe disso.
Depois de respirar fundo e pensar um pouco, Roman chegou a uma conclusão: tinha uma explicação biológica perfeitamente razoável para aquilo. Depois da morte sempre sobra atividade nos músculos. Esse detalhe já foi motivo de muita confusão em funerais e salas de IML. É fisiologia, não milagre.
Dali dava para ver que o dono da casa não se importava com limpeza. Debaixo do móvel havia chicletes mastigados, teias de aranha e um fóssil de pizza. Roman morria de medo de aranhas — mas tinha ainda mais medo de ser descoberto. Ficou quieto.
Ivan não se mexeu mais.
Aproveitando a calmaria, Roman saiu de baixo da mesa e se enfiou sob a cama. Mais teias, mais chicletes, mais migalhas. Precisava ir embora dali o mais rápido possível.
Começou a arquitetar um plano de fuga. Pensamentos, ideias, esquemas. Nisso ele era bom — afinal, era um cérebro de verdade. Preso no Ivan, nunca passou dos 10% protocolares. Agora, livre, podia ir muito além.
Saiu devagar, com passadas suaves, como um mímico flutuando. A porta do quarto estava entreaberta. Com um empurrãozinho, passou.
O corredor estava às escuras, salvo o reflexo azulado da televisão que Ludmila assistia na sala. Roman foi caminhando, pé ante pé, em direção à cozinha.
Quando avistou a portinha do gato, lembrou que tinha mais um problema. Se chamava Nikolai — o siamês do casal. Velho e gordo, mas territorial, com um faro de sommelier para cheiros novos.
Três
Nem sinal do bicho. Deve estar na sala, no colo da Ludmila, como sempre, pensou. Seguiu em frente. Foi quando ouviu o barulho inconfundível de areia sendo revolvida. O banheirinho do Nikolai ficava na lavanderia, contígua à cozinha. Roman gelou quando viu a sombra do gato surgindo pela porta.
Não fazia ideia de como seria um confronto entre um cérebro e um felino. Esse capítulo não passava no National Geographic.
Ao notar a presença de Roman, Nikolai ficou imóvel e se arrepiou todo. Roman estava aterrorizado, só de imaginar aqueles pelos grudando nos seus miolos úmidos.
Depois de farejar o ar algumas vezes, Nikolai foi se aproximando lentamente até ficar a um metro de distância de Roman.
Diante daqueles olhos felinos, que mais pareciam faróis, o cérebro ficou imóvel, como se hipnotizado.
Roman fazia um esforço enorme para não transparecer o pavor. Inútil — felinos sentem o medo no ar. Impossível disfarçar.
O gato tinha mais de quinze anos, o equivalente a um humano de setenta. Não seria páreo duro, pensou Roman, tentando arranjar argumentos para se acalmar. Mas Roman nunca tinha brigado na vida e bastaria um par de arranhões para ele virar um suflê.
Depois de dar um passo, dois, e de quase encostar o focinho no cérebro, Nikolai dobrou as patas dianteiras, abaixou bem a cabeça e deu aquelas reboladas que precedem o ataque mortal.
Roman estava encurralado no canto, sem saída. Ferrou, pensou.
Então o gato se jogou no chão, como se desmontasse, ficou de barriga para cima e começou a ronronar. O bichinho só estava querendo brincar.
Será que ele me reconheceu? imaginou Roman. Não é possível — deve ter sentido que sou eu.
É possível sim, Roman. Os gatos são dotados de um sexto sentido e percebem coisas que os humanos nem imaginam. Dizem que são capazes de ver fantasmas e até de detectar doenças em seus tutores que a mais moderna ressonância magnética não revelaria.
O ronronar ficou mais forte e Roman sentiu uma leve onda de prazer, como se os dois vibrassem na mesma frequência. Era estranho, mas extremamente agradável.
De repente a atenção dos dois foi atraída para o corredor. Era Ludmila, aproveitando o intervalo comercial. Apavorado, Roman deslizou para baixo de uma cadeira — só que o gato o seguiu, e isso era tudo o que ele não queria. Chamaria a atenção da senhora.
O cérebro gelou quando a mulher passou raspando, roçando as pantuflas nos seus miolos úmidos.
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