É grave, doutor?
A seguir, um pequeno texto que guardei por muito tempo. Talvez por medo, ou por pura implicância comigo mesmo. Mas hoje acordei decidido a libertar o pobrezinho.
É grave, doutor?
Paciente, apreensivo, no consultório. O médico examina radiografias e laudos.
— Tá tudo bem comigo, doutor?
O médico balança a cabeça, insinuando que não.
— O que foi? Hipertensão? Colesterol alto? Eu sabia. Devia ter me cuidado. Custava ter bebido e fumado menos? Pra quê comer tanta porcaria? Churrasco, fritura, cerveja… Uma droguinha aqui, outra ali… Sabia que ia dar nisso. Foi divertido viver sem freios, agora vou pagar a conta. Aqui se faz, aqui se paga, não é o que dizem os sábios? Toc toc toc… tô até ouvindo o Diabo bater à porta. Diga logo, doutor: diabetes? Alzheimer? Câncer de próstata? Pode falar sem rodeios.
— Infelizmente… você sofre de…
O médico faz uma pausa, franzindo a testa sobre os exames.
— Desembucha já! Se for problema no coração, posso ter um infarto aqui mesmo.
— Você sofre de amor — diz o médico.
O paciente abaixa a cabeça, derrotado.
— Droga! Amor? Fala sério! Achei que já fosse imune a essa porra!
— Ninguém é imune ao amor — explica o médico. — Andou saindo com alguém ultimamente?
— Pois é… tem uma garota.
— Eu sabia. Aposto que não tomou os devidos cuidados profiláticos.
— Verdade. Nenhum cuidado. Mas isso é tão grave assim, doutor? Tem cura?
— Depois que o amor se instala no corpo, não há muito o que fazer. Só resta monitorar. Controlar.
— Droga, que cagada fui fazer.
O doutor tenta acalmá-lo:
— Se desesperar agora só piora. Por enquanto não é grave. O perigo é que, em alguns casos… o amor evolui.
— Evolui?
— Funciona assim — diz o médico. — Começa com uma simples paixão. Se você não cuida, vira amor. O amor cresce, cresce, fica sério, toma conta de tudo e…
— E o quê?
— Em alguns casos… termina em casamento.
— Casamento, filhos, babá, escola, prestações, responsabilidades, deveres, aborrecimentos de todos os tipos… — se desespera o paciente.
— O amor não tem cura. Mas tem jeito.
— E qual é, doutor?
— Fugir.
— Fugir? Assim? Como um covarde? Fugir pra onde?
— Pra outro amor. Às vezes, a única forma de combater uma doença… é com a própria doença.
Amsterdã é uma festa
Meu novo livro, (e segundo) livro em prosa está disponível no quiosque virtual mais próximo da sua casa.
Apresentação
Paris por um triz foi meu primeiro livro em prosa. Nele, contei minha saga na Cidade Luz em 1990, em busca de um lugar ao sol e espaços em jornais e revistas para publicar meus quadrinhos. Naquela época, por causa da grana curta, viajei pouco, mas consegui dar uma escapada rápida para Amsterdã.
Foram só três dias que, de tão intensos, pareceram durar uma eternidade.
É disso que trata este novo livro — o meu segundo em prosa. Amsterdã é uma festa é o relato das minhas aventuras doidas na “Veneza do Norte”.
Diferente do livro sobre Paris, neste optei pela terceira pessoa, o que deu mais liberdade ao meu outro eu, o Adaô — aspirante a beatnik e desbravador.
Este livro flerta com a autoficção — termo criado pelo francês Serge Doubrovsky em 1977 para descrever seu romance Fils — aquele gênero em que memória e invenção andam de mãos dadas. Talvez essa seja mesmo a melhor definição para Amsterdã é uma festa: meio autobiografia, meio invenção. De vez em quando, dou asas à imaginação, só para garantir que o leitor não caia no sono.
No início dos anos 90 o mundo era outro, bem diferente do atual. Um mundo pré-internet, com telefones públicos (os “orelhões”), poucos computadores e, no máximo, um ou outro aparelho de fax. Outro tempo. Outra onda. E, ainda assim, algumas coisas não mudaram — como o frio na barriga ao pisar num lugar desconhecido.
Onde comprar
A edição é totalmente independente e está disponível no Brasil, aqui.
Para quem mora fora, a Amazon disponibilizou em marketplaces de todo o mundo, é só escolher o mais próximo da sua morada. Aqui.
Tem também a versão Kindle. Aqui.
Era isso por hoje, mas ficou uma dúvida: por que, a partir de uma certa idade a próstata aumenta e o pingolim diminui? Não poderia ser o contrário. Aí, Deus, jogando essa ideia para você melhorar o projeto desse órgão.
Hora de passar o chapéu
Segue um videozinho novo que fiz pra apresentar minha campanha de financiamento coletivo, o Correio Elegante.
Prometo melhorar na atuação. E os olhos um pouco caídos não são de tristeza — é só o existencialismo batendo de leve.
A ideia do vídeo é sensibilizar mais gente a assinar.
Assiste aqui.
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ObrigAdão e bom finde.






- Fica tranquilo. Vou te receitar um relacionamento tóxico para que você fique livre do amor rapidamente. É um remédio amargo, dói bastante no começo, mas você acostuma. Logo, logo não vai querer saber de amor nenhum! Em dois tempos vai estar colecionando LPs, bonés e brincando de ferrorama na sala. Pra acertar a dosagem, você prefere uma pessoa maniaca obsessiva compulsiva, uma neurótica e depressiva ou talvez uma sistemática, metódica e controladora?
- Não sei dizer...
- Não tem problema. Vou te recomendar uma que tem saído bastante. É a pseudo influencer viciada em postar foto de viagem no instagram, que não larga do celular. Vai ficar insuportável muito rápido! É tiro e queda pro seu problema de amor. Poucos efeitos colaterais e tem de vários modelos. Perfeito pra você! Vai precisar de atestado?
Muito bom texto! O amor tanto cura quanto adoece. Em demasia, é veneno. Mas, como diz minha personagem Maria, também pode ser “a maior das subversões”.