Jekyll & Hyde
Hoje vou contar um pouco sobre um dos trabalhos mais interessantes que fiz na minha carreira.
É tudo culpa do editor e de… Hyde
Tudo começou com um e-mail enviado pelo editor da Antofágica. Ele perguntou se eu toparia ilustrar o livro O Médico e o Monstro. Antes de responder, fui dar uma volta no centro da cidade. Passei por um sebo de livros e revistas que adorava e resolvi entrar. Em uma das prateleiras havia uma coleção de Paris Match dos anos 50, a famosa revista semanal francesa de atualidades. Meus olhos brilharam diante daquelas joias e, como bom francófilo, acabei levando um lote de 50 exemplares. O dono do sebo puxou conversa comigo e me disse que as revistas faziam parte de uma coleção de uma senhora suiça que morava na cidade e tinha acabado de falecer. Chegando em casa, respondi o e-mail dizendo que topava o trabalho mas que estava um pouco inseguro, afinal não era toda hora que se ilustrava um clássico de Robert Louis Stevenson. Nesse mesmo dia, fiz alguns esboços e enviei ao editor, mesmo sem me convencer, de que eu estava no caminho certo. Meu traço era cômico demais. Meus personagens, de feições engraçadas, dotados de narizes e pés grandes, foram criados para você olhar e rir. Afinal, eu sempre fiz quadrinho de humor. Entretanto o clima do livro O Médico e o Monstro pedia o contrário disso. Algo sombrio. Macabro. E de preferência com um pouco de fog londrino. Mais tarde o editor me respondeu e disse que gostava também das pinturas que eu estava fazendo e sugeriu que eu misturasse meu trabalho tradicional, o de quadrinhos, com a pegada artística. Enquanto dava uma folheada nas revistas Paris Match, fiquei pensando na sugestão que ele havia me dado. Em uma delas tinha uma matéria sobre Nova Iorque ilustrada com fotografias de ninguém mais ninguém menos que Henry Cartier Bresson! Cada exemplar era uma preciosidade em todo o seu conjunto: projeto gráfico, anúncios de publicidade, textos, ilustrações, cartuns e fotos. Era dono de um tesouro. Logo mais adiante, uma reportagem sobre um crime em Londres me chamou a atenção e imediatamente me fez lembrar de Jekyll e Hyde. Recortei a foto principal da matéria, de uma rua nebulosa de Londres, e com uma caneta de nanquim, tracei um personagem. Depois espremi sobre a foto um tubo de tinta acrílica vermelha dando a impressão de mancha de sangue escorrida. Gostei daquilo e fui recortando mais páginas e fazendo experimentos parecidos: recortes, colagens e às vezes intervenções no Photoshop. O resultado foi algo completamente diferente das minhas ilustrações de humor. Havia chegado ao clima sinistro que o livro suplicava. No dia seguinte enviei as ilustrações para o editor. Fiquei achando que ele não ia gostar do material, achar excessivamente louco, inusitado, muito diferente do trabalho que eu costumava fazer.
Algumas horas depois ele me respondeu dizendo que tinha gostado muito do que viu e me deu carta branca, disse que eu podia pirar o quanto quisesse. Então o Jekyll dos quadrinhos de humor foi possuído por um sombrio Hyde. Na sequência produzi várias ilustrações repetindo o processo de intervenção nas fotos das revistas. Não satisfeito, resolvi partir para outras experimentações que incluíam pequenas esculturas, fotos de peças de jogos de palavras cruzadas, uma pequena animação no formato de flip book e até uma pintura sobre lata. Por pouco não desenhei com meu próprio sangue mas confesso que cheguei a pensar nessa possibilidade. Em um dos trabalhos, coloquei meus óculos sobre um anúncio de academia de halterofilismo e a imagem ficou engraçada e ao mesmo tempo tenebrosa. Em outro, peguei um anúncio da revista Mad e fundi a imagem do Alfred Newman com a cara de um monstro. No meio do processo cheguei a incorporar uma voz gutural de monstro que acabou ficando mais parecida com a voz do vocalista da banda de gozação Massacration do programa Hermes e Renato. Meu mergulho nesse trabalho foi tão profundo que em dado momento senti vontade de sair pelas ruas e estripar pessoas e bichos de estimação. Por sorte controlei meu instintos selvagens com corridas pelo quarteirão, flexões e sessões de ioga. Em menos de um mês produzi mais de 60 ilustrações.
De vez em quando a voz de monstro ainda me chamava e eu sentia vontade de retomar esse trabalho. Voltei ao sebo e no espelho da entrada percebi que meus caninos saíam e as sobrancelhas estavam quase tapando meus olhos. Achei melhor sair correndo.
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pô, que trampo lindo! Parabéns!