Penso, logo exausto
Fim de ano
Semana passada terminei Nós sempre teremos São Paulo, e bateu a tal depressão pós-livro. Pós-projeto, pós-trabalho, pós-isso, pós-aquilo.
Não que eu esteja deprimido. É que isso se junta à chegada do fim do ano, quando estamos cansados. Daí veio a frase — Penso, logo exausto — que acabou virando tira.
Os relatos paulistanos que saíram semanalmente — às quartas-feiras — no Correio Elegante, meu Apoia.se, estão em processo de revisão e vão virar livro. Ano que vem teremos uma trilogia na área: Paris por um triz, Amsterdã é uma festa e Nós sempre teremos São Paulo.
Nesta semana eu não sabia o que escrever no Correio e resolvi brincar com a ideia do escritor se preparando para trabalhar, em busca de ideias. Lembrei que tinha feito uma série do pai da Aline como escritor. Ele criou um pseudônimo: Estevan Catamiglio. Acabei roubando de mim mesmo o nome.
Aqui vai a primeira parte.
O cachorrinho riu de nervoso*
*Título em homenagem ao escritor John Fante.
Depois de frequentar uma pá de oficinas de escrita, finalmente Estevão da Silva criou coragem para escrever o primeiro romance.
Já passava da meia-noite e uma tempestade castigava a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, onde morava nosso destemido literato. A cidade começava a silenciar, e mal se ouvia outra coisa além do barulho contínuo da chuva. Clima perfeito para se concentrar nos dedos, no teclado e nas palavras. Havia chegado o momento perfeito. Pelo menos era nisso que ele acreditava.
Depois de preparar um café forte, cortado com leite em pó, Estevão se senta na escrivaninha antiga, que ficava ao lado da janela, e saca da gaveta algumas folhas de sulfite. Em cima da mesa, encarando o aspirante a prêmio Nobel, repousa uma Remington 15 portátil.
Aquela máquina de escrever é um primor do design: corpo bege, teclado e rolo pretos, alavanca cromada e, envolvendo tudo isso com charme setentista, uma tampa rígida laranja de plástico, que funciona como estojo de transporte.
Ele tem um carinho especial por aquela velha Remington, presente de uma namorada — agora ex, porque ela se cansou de esperar o tão prometido soneto de amor datilografado do fundo do coração. E, no fim das contas, não saiu nada decente daquelas teclas. Pelo menos até aquela noite.
Depois de alguns goles de café, Estevão acende um Camel, sua marca de cigarros preferida. Na primeira tragada, fecha os olhos e embarca para o Egito num vagão esfumaçado do Expresso do Oriente.
Depois de bobinar o papel no rolo, alinhar milimetricamente a folha e avançar alguns espaços com a alavanca, posiciona os dedos suavemente sobre o teclado. Como quem aquece as articulações das falanges antes de uma luta ou de um concerto, começa a mover os dedos freneticamente, roçando as teclas com um carinho nervoso.
Enquanto aguarda a chegada das ideias, viaja nas auréolas ascendentes de fumaça e se distrai com o desenho do rótulo do maço, tentando decifrar as figuras escondidas na pele do camelo. Primeiro vê um homem nu, de quatro. Girando um pouco o maço, enxerga um pássaro — ou melhor, um corvo. Bingo. Corvo. Aquilo remete a Edgar Allan Poe, um de seus ídolos. É um sinal de que a sessão de escrita promete.
Agora chega de viajar na maionese, Estevão. Mãos à obra. Ou melhor: dedos à obra.
Opa, peraí. Antes de mais nada, Estevão da Silva não está com nada. Você acha que 1984 teria feito aquele sucesso todo se George Orwell tivesse assinado Eric Arthur Blair, seu nome verdadeiro? E Pablo Neruda, então, assinando Ricardo Neftalí Reyes? Seria um poeta condenado ao fracasso e ao anonimato. Para fazer sucesso, você precisa de um pseudônimo decente.
Que tal Stephen Dassilva? Nada a ver. Way Heming. Não, passa. Manchado de Cassis… Ferdinando Persona… passa… passa… passou.
O brainstorming emperra até que, depois de uma tragada profunda do dromedário de filtro amarelo, o cérebro do escriba se ilumina.
Estevan Catamiglio!
Agora sim. Pseudônimo com humor. E, o mais importante, verdadeiro: nosso herói das letras passou longe dos cursos de datilografia.
Continua.
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Ano que vem vai rolar muita novidade impressa. A seguir, algumas delas.
Nem tão infantil
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Lançamento: Seleção Natural do Adão
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Amsterdã é uma festa
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Paris por um triz — 30%off
Descontão no meu livro de estréia no mundo da prosa. Aqui.
ObrigAdão e bom finde.







Parabéns meu amigo. Que tenhamos 2026 novidades. Esse ano 2025 foi surpreendente.