Pequenas mortes
Só existem duas certezas no mundo: um dia vamos morrer e nunca vamos transar com a Scarlett Johansson.
Esses dias passei por um asilo — já estou com sessenta — e vi os velhinhos do outro lado da cerca. Bateu uma aflição daquelas. Quando eu tinha vinte, trinta, isso não me afetava nem um pouco.
Mês passado, conversando com um parente que reclamava dos seus setenta anos, mandei:
— Envelhecer é uma merda, mas é melhor que a outra opção.
— Como vamos saber disso, Adão? — respondeu.
A gente só aprende a viver quando é tarde demais — me disse um amigo, uma vez.
Minha advogada reclamou outro dia dos seus sessenta e cinco:
— Estou ficando velha.
— Sempre tem pessoas mais velhas que a gente — falei, tentando consolar.
— Tem, mas cada vez menos — ela respondeu.
Woody Allen contou que, quando soube da morte, ficou revoltado e pediu uma revisão do contrato da vida. Em vão, queria tirar as letras miúdas.
O poeta e satirista alemão Heinrich Heine, doente e prestes a morrer, teria dito:
“Mesmo Napoleão morreu; por que eu não morreria também?”
Quando eu era criança, adorava brincar com os amigos no cemitério da cidade.
Tinha uma placa na entrada: “Mantenha o respeito aqui. Já fomos como você é, e um dia você será como nós.” Mas a placa não impedia a gente de zoar para caramba lá dentro. O túmulo mais chique e grande era de um tal de Modesto. Piada pronta.
Durante a infância, quando descobri que não era imortal, fiquei chocado.
Quem me contou foi o desgraçado do Edinho, meu primo mais velho. Estávamos vendo Tom e Jerry, um personagem morria e sua alma saía voando.
— Morreu? — perguntei.
— Sim — disse o primo. — Acontece com todo mundo.
— Com todo mundo? — perguntei, aterrorizado.
— Sim, inclusive com você.
Acho que aquela foi a primeira vez que fiquei deprimido. O luto pela minha própria morte durou um mês, até que fui obrigado a me acostumar com a ideia.
Mais duro que isso foi ter que explicar o mesmo para o meu filho, quando ele viu um passarinho morto no pátio.
O que conforta é olhar para trás e ver que fiz alguma coisa. Que aproveitei a vida. As boas memórias aquecem o coração.
Deve ser uma chatice viver eternamente. Já viram o Conde Drácula feliz? Nos filmes, ele está sempre tenso, desconfiado, preso à própria sina de uma vida interminável — e ainda condenado a nunca poder pegar um bronze na praia.
O tempo é algo fascinante. Às vezes olhamos com pena para um inseto que vive menos de vinte e quatro horas — mas provavelmente essas vinte e quatro horas equivalem a cem anos humanos.
Uma coisa é certa: o importante é nunca parar. Dançar espanta a morte. Por isso nunca deixe de requebrar o esqueleto (ops!).
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