Poupança e projetos
“Minha poupança são meus projetos”, disse Georges Wolinski numa entrevista. Wolinski, junto com Angeli e Reiser, é um dos meus mestres no cartum. Infelizmente, uma das vítimas do atentado brutal ao Charlie Hebdo em 2015.
Com essa frase, ele quis dizer que cartunistas não são ricos. Nem os famosos, como era o caso dele. Tem exceções, claro.
Eu, por exemplo, estou atolado de projetos. Deve ser porque já passei dos sessenta e sei que não tenho mais uma vida inteira pela frente.
Nos próximos dois, três anos, quero lançar uma porção de livros. Colocando, assim, meu acervo à disposição.
Já estou a todo vapor nessa empreitada: quase oito mil tiras que publiquei na Folha de S. Paulo, mais HQs que saíram nos cadernos Folhinha e Folhateen, sem contar os milhares de desenhos espalhados por outras publicações.
A ideia é dar uma limpa no passado e focar nos projetos novos, entre eles um livro de cartuns de gatos, outro compilado de piadas sobre psicanálise e mais um com tiras filosóficas que tentam destrinchar o sentido da vida e outros temas cabeludos.
Na prosa, pretendo fechar a série de viagens em breve. Paris e Amsterdã já estão prontos. Falta revisar um livro sobre Nova Iorque e terminar Nós Sempre Teremos São Paulo, que escrevo um capítulo por semana no Correio Elegante. Ainda tem na mira um livro de contos curtos e memórias de infância e adolescência.
Ah, tem também uma graphic novel. Talvez seja o projeto mais difícil de tirar do papel.
Mas, como bom basco, não desisto fácil.
Sobre essa HQ mais longa, só contei pra amigos bem próximos. Mas vou abrir uma exceção: aqui vai o começo. Ainda não tem título.
Toda segunda, nove da manhã, bato ponto. Faz trinta anos que trabalho na mesma loja de eletrodomésticos. Sou o cara que pega a sua nota de entrega, vai até o depósito, separa o produto, abre na sua frente, confere com você se não falta nenhuma peça, liga pra ver se funciona e, se estiver tudo certo, embrulha de novo, pede sua assinatura e, só então, entrega.
Gosto desse trabalho porque não preciso inventar nada nem aprender coisa nova.
Às sete da noite, volto pro meu cafofo. Alugo uma edícula no fundo da casa dos avós de um amigo. É barata, tem banheiro e mini-cozinha. Não quero mais nada. Não tenho ambições. Crescer me assusta. Quanto maior, maior o tombo. Eu sou pequeno — e quando caio, levanto como se nada tivesse acontecido. Tá ótimo assim, do tamanho certo.
De fora, minha vida parece um tédio monumental. Rotina de segunda a sábado, sem variação. No fim de semana, faço o possível pra não sair de casa. Peço pizza na padaria da esquina, assisto TV e vou dormir.
Odeio surpresas. Depois de certa idade, surpresa boa é exceção — a maioria estraga o dia. Pra quem vê, pode até parecer deprimente, mas eu adoro minha vida do jeito que ela é.
Falando em poupança e projetos, sabia que você pode me ajudar a concretizar todos esses meus sonhos? Como? Assinando o Correio Elegante, meu apoia.se.
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Tem também recompensas e livros digitais.
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Amsterdã é uma festa
A seguir, um trechinho do meu segundo livro em prosa:
CARTAS A THÉO
Ao entrar na primeira sala do museu, Adaô recebe um choque de adrenalina. Até aquele momento ele só tinha visto aquelas obras em livros mal impressos ou com fotos em preto e branco. Agora elas estão ali bem na sua frente, em carne e osso. Ou melhor, em tela e óleo.
O aspirante a beatnik quer passear entre os campos de girassóis e tulipas, cruzar o vale com o labrador, visitar o quarto do Vincent em Arles, bater um papinho com o Dr. Gachet. E, para fechar com chave de ouro, deitar nos campos de trigo e observar hipnotizado a noite estrelada sobre o Ródano.
Na sala seguinte do museu, Adaô se depara com “Os Comedores de Batatas”, um quadro muito conhecido do pintor. Emocionado, nosso herói entra em transe e, aos poucos, se aproxima da tela. Um passo à frente, dois, três. Agora ele está tão perto que poderia tocar nas batatas. Essa pintura é uma das suas preferidas por causa dos traços exagerados e caricatos dos personagens. Poderia ser um cartum, pensa ele. E ao vivo, o impacto é mil vezes mais forte. Aqueles camponeses parecem ter vida. Respiram, se movem e até conversam entre si. Adaô fica confuso, não sabe se isso é real ou é o efeito da terebentina, solvente que Vincent aspirava para ficar doidão.
Um grito de “stop” é ouvido quando Adaô dá mais um passo à frente. O segurança faz um sinal dizendo para ele se afastar e ficar atrás da linha amarela marcada no piso.
Onde comprar
A edição é totalmente independente e está disponível no Brasil, aqui.
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Tem também a versão Kindle. Aqui.
Paris por um triz — 30%off
Descontão no meu livro de estréia no mundo da prosa. Aqui.
ObrigAdão e bom finde.






Adão, como sempre, muito bom texto, dá um grande prazer ler suas crônicas.
Alguém já lhe deve ter dito, o atentado ao Charlie Hebdo foi em 2015, não em 1995. Corrija lá, por precisão histórica.
Abraço!
Henrique
Pô, inspiradora mesmo a essa tua configuração íntima do equilíbrio