Rolê no País Basco
Iturri e Garai
Durante anos fiquei sem saber o que significava meu sobrenome. Até que um dia, uns amigos bascos me traduziram:
“Iturri” quer dizer fonte, nascente de água.
“Garai” significa elevado, do alto.
Deve ser por isso que eu gosto tanto de montanhas, de lugares altos. E não é coincidência nenhuma que uma das séries que mais gosto de fazer seja “La vie en rose”: um sujeito parado na beira de um penhasco, falando coisas profundas ou pura bobagem.
Um dos meus sonhos recorrentes é cair de um precipício e bater os braços, tentando voar. E, por sorte, eu sempre consigo. É uma sensação gostosa pra caramba. Se existir outra vida, quero ser pássaro.
Em 1999, fui pra Espanha com meu amigo Zé Maria Palmieri. Alugamos um carro em Madri e rumamos pro norte. O interior da Espanha era seco, dourado, e de repente começaram a despontar montanhas nevadas. Era o País Basco. Uma mudança brutal no cenário, um ar fresco e puro.
Ao cruzar uma cordilheira, ouvimos tiros de rifle. Era zona de caça! Só me faltava essa… sobreviver ao Brasil e morrer baleado no País Basco. Isso é que é ser azarado.
Quando chegamos ao primeiro vilarejo, a emoção me bateu num grau absurdo. Eu sabia, eu sentia, que minhas raízes estavam ali.
Zé Maria, vendo o povo sentado nos bares, bebendo e fumando, sacaneou:
— Olha ali, um monte de caras iguais a você. Todos de testa grande.
A gente ficou hospedado na casa de uma família simpática em Aretxabaleta. Um casal e o filho adolescente. No jantar, serviram tomates e atum fresco. O peixe era uma delícia, e os tomates vinham em porções fartas.
Depois do jantar, o senhor basco, um bonachão saudável de uns sessenta anos, apontou pra mim e disse:
— Amanhã vamos subir a montanha juntos.
— Claro — respondi, educado.
Na mesma hora me arrependi. A gente ia pra a balada com o filho deles e a ideia de acordar às seis da manhã, pra fazer escalada no frio, não parecia muito inteligente.
Saímos em seguida e fomos até o pub. Era um lugar pequeno, animado, cheio de amigos do garoto. O bar era todo decorado com cartazes de prisioneiros do ETA.
Aí eu cometi a burrice de apontar pros cartazes e falar:
— Esses são terroristas, né?
Rapaz, levei uma bronca geral na hora.
— ¡Terroristas no! ¡Luchadores de la independencia del País Vasco!
No fim, ficou tudo em paz. Culpei o álcool pela minha ignorância e contei umas piadas para quebrar o gelo.
Bebemos mais umas até o filho falar:
— Vamos pra casa. Você tem que subir a montanha amanhã.
Me joguei na cama e custei a dormir. Logo ouvi o senhor basco bater na porta e entrar:
— Vamos à montanha!
Continua sexta que vem.
Dá uma forcinha aí?
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Amsterdã é uma festa
Feliz que meu novo livro só tá recebendo 5 estrelas.
A seguir, um trechinho do livro:
CARTAS A THÉO
Ao entrar na primeira sala do museu, Adaô recebe um choque de adrenalina. Até aquele momento ele só tinha visto aquelas obras em livros mal impressos ou com fotos em preto e branco. Agora elas estão ali bem na sua frente, em carne e osso. Ou melhor, em tela e óleo.
O aspirante a beatnik quer passear entre os campos de girassóis e tulipas, cruzar o vale com o labrador, visitar o quarto do Vincent em Arles, bater um papinho com o Dr. Gachet. E, para fechar com chave de ouro, deitar nos campos de trigo e observar hipnotizado a noite estrelada sobre o Ródano.
Na sala seguinte do museu, Adaô se depara com “Os Comedores de Batatas”, um quadro muito conhecido do pintor. Emocionado, nosso herói entra em transe e, aos poucos, se aproxima da tela. Um passo à frente, dois, três. Agora ele está tão perto que poderia tocar nas batatas. Essa pintura é uma das suas preferidas por causa dos traços exagerados e caricatos dos personagens. Poderia ser um cartum, pensa ele. E ao vivo, o impacto é mil vezes mais forte. Aqueles camponeses parecem ter vida. Respiram, se movem e até conversam entre si. Adaô fica confuso, não sabe se isso é real ou é o efeito da terebentina, solvente que Vincent aspirava para ficar doidão.
Um grito de “stop” é ouvido quando Adaô dá mais um passo à frente. O segurança faz um sinal dizendo para ele se afastar e ficar atrás da linha amarela marcada no piso.
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ObrigAdão e bom finde.






