Rolê no País Basco
Segunda parte e final
Ao ouvir o chamado do senhor basco para escalar a montanha, tapei o rosto com as cobertas, fingindo que dormia profundamente.
Mas basco que é basco não cai em qualquer truque. Eles nunca desistem. Um povo que resistiu à ditadura de Franco e não se dobrou nem ao bombardeio covarde de Guernica jamais seria enganado por um falso adormecido.
Pisadas fortes de botas ecoaram pelo quarto. O homenzarrão se aproximava da cama.
Ensaiei uns roncos, fingindo que estava de colherzinha com Morfeu, mas o bascão, que não tinha nascido ontem, puxou as cobertas e gritou:
— Seis da manhã! Hora de subir a montanha!
Não teve jeito. Com sorte, devo ter dormido meia hora naquela noite, mas por educação — e por medo de levar um sopapo daquela mão gigante — obedeci.
Senti uma inveja danada do Zé Maria que, esperto, não se comprometeu com a escalada e continuou sonhando feliz.
Às duras penas, levantei, me vesti e fui lavar o rosto com água fria no banheiro.
Quando cheguei à cozinha, a mesa estava posta com um café da manhã de cinema: pão de campo, chouriço caseiro, molho de tomate, iogurte natural e frutas do bosque. Depois do banquete matinal, saímos.
Só no caminho até o pé da montanha Murugain eu já estava com os bofes de fora. Por pouco não vomitei o embutido nas botas do chefão basco.
Mas logo no começo da subida algo surpreendente aconteceu. Tudo era tão lindo — a vegetação, a vista, o ar fresco — que a ressaca evaporou.
O homenzarrão esbanjava amor pela natureza. Tocava nas plantas e flores com carinho e me explicava cada uma delas como se fosse um biólogo diplomado.
Passamos por um rebanho de cabras e, depois de certo ponto, já não havia trilha: tivemos que escalar umas pedras até o cume, a 776 metros, onde havia uma cruz.
Aproveitei que eu era o Iturrusgarai — a “fonte dourada do alto” — e dei uma mijadinha lá de cima.
A descida, com a ajuda da gravidade, foi bem mais leve.
Passamos por uma cabana e um casal de camponeses nos convidou a entrar. Eram criadores de cabras e faziam queijo. A decoração da casa era simples e eles estavam vestidos a rigor: boinas, botas, roupas que lembravam bombachas gaúchas. Nos serviram uns biscoitos e vinho num saco de couro. Pensei em recusar a bebida, com medo da ressaca voltar, mas fazer desfeita com bascos pode ser perigoso.
Antes de nos despedirmos, nos levaram ao galpão onde defumavam os queijos. Defumados mesmo, com fumaça — não pintados, frisar.
Seguimos a descida, aproveitando a deslumbrante vista das serras e da cidade de Aretxabaleta.
Quando chegamos ao pé da montanha, o senhor basco me confidenciou:
— Subir a montanha é uma tradição de família, passada de pai para filho. Faço isso uma vez por semana, mesmo com neve até a cintura.
E depois, quase num sussurro, completou:
— Meu filho nunca subiu comigo.
Aquela frase me desmontou de emoção e dei um abraço apertado nele. Me arrependi na hora: os tapões nas minhas costas eram tão fortes que achei que meus pulmões tinham virado suflê.
Depois do almoço, ele me levou a uma vila onde achava que moravam uns Iturrusgarai. O senhor gritou qualquer coisa e abriram a janela. Ele apontou para mim e explicou que eu era um Iturrusgarai do Brasil.
Ao escutarem, fecharam a janela imediatamente. Imaginei que pensaram que eu estava atrás de dinheiro ou herança.
À tardinha, na hora de ir embora, demos de cara com o carro vandalizado: quatro pneus vazios. Os bascos são bastante bairristas e, infelizmente, não levamos a sério a recomendação de tapar as placas de Madri.
Fim
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Amsterdã é uma festa
Feliz que meu novo livro só tá recebendo 5 estrelas.
A seguir, um trechinho do livro:
CARTAS A THÉO
Ao entrar na primeira sala do museu, Adaô recebe um choque de adrenalina. Até aquele momento ele só tinha visto aquelas obras em livros mal impressos ou com fotos em preto e branco. Agora elas estão ali bem na sua frente, em carne e osso. Ou melhor, em tela e óleo.
O aspirante a beatnik quer passear entre os campos de girassóis e tulipas, cruzar o vale com o labrador, visitar o quarto do Vincent em Arles, bater um papinho com o Dr. Gachet. E, para fechar com chave de ouro, deitar nos campos de trigo e observar hipnotizado a noite estrelada sobre o Ródano.
Na sala seguinte do museu, Adaô se depara com “Os Comedores de Batatas”, um quadro muito conhecido do pintor. Emocionado, nosso herói entra em transe e, aos poucos, se aproxima da tela. Um passo à frente, dois, três. Agora ele está tão perto que poderia tocar nas batatas. Essa pintura é uma das suas preferidas por causa dos traços exagerados e caricatos dos personagens. Poderia ser um cartum, pensa ele. E ao vivo, o impacto é mil vezes mais forte. Aqueles camponeses parecem ter vida. Respiram, se movem e até conversam entre si. Adaô fica confuso, não sabe se isso é real ou é o efeito da terebentina, solvente que Vincent aspirava para ficar doidão.
Um grito de “stop” é ouvido quando Adaô dá mais um passo à frente. O segurança faz um sinal dizendo para ele se afastar e ficar atrás da linha amarela marcada no piso.
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