Romero, você está fritto
Se eu fosse Van Gogh
Foi a gota d’água. Quando Romero Britto fez a releitura de uma pintura de Van Gogh, o holandês se remexeu na tumba. Ficou puto da vida, se convulsionou. Arranhou e socou a madeira até arrombar o caixão. Depois escavou a terra feito uma toupeira endiabrada e, sem economizar forças, chegou à superfície. Ah, como era bom respirar ar puro de novo depois de 130 anos.
Mal sacudiu a terra dos ombros, bateu um papo com o coveiro para saber como ele fazia para ir para outro continente.
— Nossa, como o senhor tá pálido! O que aconteceu com sua orelha?
Antes de pegar o avião para Miami, Vincent se hospedou num hotel, tomou um banho decente e trocou de roupas. Não queria perambular como um mendigo nem exalar aquela catinga de múmia mesopotâmica.
O voo foi surpreendentemente tranquilo. O pintor aproveitou para pôr a leitura em dia e tentar entender as novidades do admirável mundo novo. Ao chegar ao aeroporto de Miami, pegou um táxi.
— Toca para o ateliê do Romero Britto.
O motorista serpenteou pela cidade e, meia hora depois, entrou num condomínio chique. Estacionou diante de uma mansão imponente. Vincent pagou a corrida com uma nota puída de 500 francos que seu irmão Theo havia lhe dado.
— Pode ficar com o troco.
Sem querer chamar atenção, Van Gogh preferiu pular o muro. Atravessou o pátio — gramado aparado com obsessão, jardim de revista — e foi até a parte envidraçada e bem iluminada da casa: o ateliê do artista brasileiro sensação do momento.
Por alguns instantes, ficou observando Romero trabalhar, pincelando um quadro com aquele entusiasmo cromado. Foi o bastante. Bastou ver como ele desperdiçava o Amarelo de Cádmio para que Vincent tivesse um acesso de fúria. Pegou uma pequena — e estupidamente kitsch — estátua de mármore que enfeitava o espaço. Sem hesitar, quebrou o vidro e entrou. Romero se virou, assustado.
— Romero, você está fritto! — disse Vincent, com dois “t” mesmo.
A estatueta deu duas voltas no ar, chegou a assobiar, e acertou em cheio a nuca do brazuca. Romero caiu e morreu na hora.
A tempo de voltar para casa, Vincent sacou uma faca, cortou a orelha esquerda do pernambucano e a costurou em si, apressado, como quem arruma um detalhe antes de pegar o último trem.
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Rommmero Frittto