Verissimo falava pouco?
Lá vem polêmica
Sexta-feira é o melhor dia para polemizar. No fim de semana todo mundo enche a fuça e, na segunda, já esqueceu tudo.
Então vamos lá:
Verissimo falava pouco? Mito ou verdade? Confesso que nas vezes que tive a sorte de encontrá-lo, achei ele bem normal nesse quesito: nem calado, nem tagarela.
O que é certo: não gastava saliva à toa.
Talvez essa imagem tenha pegado porque ficaram muito conhecidas as entrevistas dele no programa do Jô Soares. E o Gordo, convenhamos, falava pelos cotovelos. Aliás, isso já rende outra polêmica: será que o Jô falava demais?
Voltando ao Luis. O “problema”, talvez, fosse o excesso de eloquência dos amigos que o cercavam. Imagine a cena: numa mesa de restaurante, Verissimo ladeado por Chico, Paulo Caruso, Santiago, Fraga, Millôr, Ziraldo, Angeli, Laerte, Jaguar. Todos disparando histórias, aventuras, mentiras e piadas com a habitual maestria.
Para que falar e atrapalhar o show? Nessas horas, nada melhor do que escutar. E isso era uma especialidade do Verissimo. Bastava olhar seu rosto: sorriso contido, atento, se divertindo muito.
E quando falava, era ouro — mas não necessariamente. Às vezes soltava apenas um comentário, um elogio, um complemento à frase de alguém.
Antes de terminar este texto, escrevi para o cartunista Santiago, grande amigo dele, e perguntei:
— Nunca achei que o Verissimo falasse pouco. Você tinha essa mesma impressão?
E Santiago respondeu:
— Adão, uma vez viajamos juntos pra Sampa… proseamos sem parar as duas horas de voo. Ele até contou que tinham encomendado um texto sobre um filme pornô. Hahaha! Nunca vi esse texto.
Depois, escrevi também para outro amigo em comum, o Fraga. Ele me disse:
“Digamos que falante ele não era. E verborrágico nunca poderia ser. Numa palavra só, eu diria que ele sempre foi sintético — mas que belas e sonoras sínteses!”
O próprio Verissimo se defendia da acusação rotineira:
“Eu não falo pouco, os outros é que falam demais.”
Pensando bem, essa história de que ele era calado talvez não passe de um mito criado para render pauta na imprensa e envernizar o gênio com mais um mistério.
E termino com a frase do Fraga, que encerra melhor que eu:
“Escreve logo esse texto, assim você preenche o silêncio imenso que ele deixou.”
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A seguir, um trechinho do livro:
CARTAS A THÉO
Ao entrar na primeira sala do museu, Adaô recebe um choque de adrenalina. Até aquele momento ele só tinha visto aquelas obras em livros mal impressos ou com fotos em preto e branco. Agora elas estão ali bem na sua frente, em carne e osso. Ou melhor, em tela e óleo.
O aspirante a beatnik quer passear entre os campos de girassóis e tulipas, cruzar o vale com o labrador, visitar o quarto do Vincent em Arles, bater um papinho com o Dr. Gachet. E, para fechar com chave de ouro, deitar nos campos de trigo e observar hipnotizado a noite estrelada sobre o Ródano.
Na sala seguinte do museu, Adaô se depara com “Os Comedores de Batatas”, um quadro muito conhecido do pintor. Emocionado, nosso herói entra em transe e, aos poucos, se aproxima da tela. Um passo à frente, dois, três. Agora ele está tão perto que poderia tocar nas batatas. Essa pintura é uma das suas preferidas por causa dos traços exagerados e caricatos dos personagens. Poderia ser um cartum, pensa ele. E ao vivo, o impacto é mil vezes mais forte. Aqueles camponeses parecem ter vida. Respiram, se movem e até conversam entre si. Adaô fica confuso, não sabe se isso é real ou é o efeito da terebentina, solvente que Vincent aspirava para ficar doidão.
Um grito de “stop” é ouvido quando Adaô dá mais um passo à frente. O segurança faz um sinal dizendo para ele se afastar e ficar atrás da linha amarela marcada no piso.
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ObrigAdão e bom finde.






Vi esses dias a entrevista dele feita pelo Drauzio Varella. Em alguns momentos, teve um silêncio meio constrangedor e uma sensação de que a frase podia continuar, mas que ele escolheu não.
A maior impressão que ficou, pra mim, foi a de um cara que levava o que fazia com uma naturalidade e até um desinteresse, como se escrever pra ele fosse o que, pra um pedreiro, é rebocar uma parede.
LFV eterno